Presidente da Comissão Paulista de Folclore critica pouco tempo dispensando aos autênticos

 Lilian Vogel esteve em Olímpia acompanhando o Festival, na quarta-feira, quando manteve contatos com grupos; ela observa que grupos parafolclóricos devem respeitar as raízes

Lilian Vogel

Lilian Vogel, formada em Artes e com pós-graduação em História Africana e Indígena no Brasil, presidente da Comissão Estadual do Folclore, esteve em Olímpia na quarta-feira do Festival, mantendo contatos com grupos e vendo algumas apresentações. Ela, que trabalha há quase 30 anos fazendo pesquisa, mantendo uma relação muito forte com os Núcleos de Folclore de Atibaia, a cidade onde reside, disse que vem ao Fefol todos os anos, e fez algumas ponderações. E até sugestões para seu aprimoramento cultural.

Vogel falou sobre Folclore e sobre o festival do gênero de Olímpia, numa entrevista que quase passou despercebida ao programa 120 minutos, comandado pelo padre Ivanaldo Mendonça, na Rádio Espaço Livre-AM.

COMPANHIAS DE REIS
"As Companhias de Reis de Olímpia são muito autênticas”, começou dizendo, informando em seguida que recebeu reclamações de mestres por causa do tempo dedicado a eles nos palanques. “Vários mestres relataram isso, porque não dá para levar uma Companhia em 10 minutos, porque ele está rezando”. Muitas vezes, também, as pessoas comentam se é necessária a indumentária dos foliões. “Precisam dessa roupa, precisa gastar com esse figurino?”, perguntam. “Aí eles respondem que ‘a gente não tem uma roupa melhor para ir à missa?’ Essas pessoas têm aquele figurino por alguma significação”.

“Como eu falo, precisa ter carinho, atenção, dar espaço a eles. Aqui no próprio Festival, os grupos de raiz têm espaço, mas eles não têm um espaço privilegiado no horário do palco, embora o grupo raiz não precise necessariamente do palco, ele pode se manifestar fora do palco, por exemplo, a Folia de Reis, que tem a capela dentro do Recinto. Acho importantíssimo, porque é um espaço deles e seria bacana se eles se apropriassem disso”, comentou Vogel.

TRABALHAR O ANO INTEIRO
"Olímpia já tem o título de Capital Nacional do Folclore, mas isso acaba aqui, só no mês de agosto acontece essa projeção. Mas ela (a cidade) tem uma bagagem e um arsenal folclórico para trabalhar o ano inteiro. Em maio eu sei que os grupos fazem um encontro, então o próprio Poder Público poderia dar apoio a mais encontros, que os próprios grupos daqui nos disseram. Se eles têm essa ideia, e já fazem isso há alguns anos, acredito que nesse encontro de maio tenha uma injeção de ânimo maior”, complementou.

EXPRESSANDO O QUE SENTEM
A seu ver, “O Festival cresceu muito e a organização tem trazido grupos interessantes, de outros estados, faz uma promoção muito grande, todo um trabalho de divulgação, de organização. Acredito que essa visão de tradição, a ideia de ter um palco onde Olímpia recebe os grupos, como anfitriões da casa (AS Folias) não podem ter um espaço onde tenham que se apresentar em apenas 10 minutos. Eles estão lá para expressar o que sentem o tempo todo no Festival”.

FOLCLORE X CULTURA POPULAR
"Folclore é um estudo, falam que é um estudo do povo. Hoje existem alguns pesquisadores que preferem trocar o termo da palavra Folclore por Cultura Popular. Há uns segmentos, principalmente na área acadêmica, dizendo que não existe mais folclore, e sim Cultura Popular. Mas os conservadores acreditam que a Cultura Popular é mais abrangente, e o Folclore visa mais as raízes.”

PARAFOLCLÓRICOS E A FÉ
Sobre os grupos de tradição, à frente as Folias de Reis, diz que “o que tem de mais autêntico neles é a fé. Agora, se formos falar do que tem hoje, a partir dos núcleos de fé, que são os grupos que se intitulam parafolclóricos, muitas vezes essa fé não está presente, esses grupos têm outra função, eles encenam. Não estou tirando a importância de nenhum deles, mas eles fazem um trabalho a partir do grupo de raiz, e se esse trabalho não tiver um aprofundamento, uma pesquisa, uma razão, ele acaba se perdendo em um show. Aí acredito que a fé vai ficar um pouco de lado. Dentro da Comissão a gente toma muito cuidado para isso não se perder”.

ATAQUES E PERSEGUIÇÕES
"Nós, da Comissão Paulista, falamos que não adianta você ter só esse conhecimento teórico, essa bibliografia, por isso frequentamos a casa dos mestres, a vida deles, sabemos de todos os seus anseios e vontades, e com relação a isso, acabei escrevendo vários livros sempre de pesquisa, pesquisa oral, documental, embora a gente saiba que pouca coisa está registrada.  “Aqui tivemos o professor Sant’ anna, que também registrou e fez os anos anteriores, mas trabalhar dentro dessa área, tem um pouco mais de dedicação, de amor, de atenção, de carinho com os grupos, relação de amizade e confiança, porque muitos grupos receberam ataques e perseguições, por falta de entendimento”.

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