Morte de mulher e bebê na UPA evidencia que problemas persistem na Saúde

Nos dois casos, a Secretaria Municipal de Saúde se exime da responsabilidade, alegando que todos os procedimentos previstos teriam sido realizados

A morte de uma mulher de 42 anos de idade nas portas da Unidade de Pronto Atendimento-UPA 24 horas de Olímpia, é mis uma prova, e bastante grave, de que o sistema continua problemático e longe de uma solução. E que também a alternativa encontrada pelo prefeito, de entregar a responsabilidade do gerenciamento a um grupo político formado por dois vereadores, um ex-vereador e um ex-assessor parlamentar de deputada petista, não gerou os resultados esperados.


O primeiro caso, bastante polêmico, ocorreu por volta das 9h30 da sexta-feira, 2 de novembro, após a paciente esperar por aproximadamente 30 minutos por atendimento médico na Unidade. O caso foi registrado na Delegacia de Polícia local, por volta das 11h30 do mesmo dia, pelo ajudante geral João Cardoso Magalhães, de 48 anos, residente na fazenda Campo Alegre, no Bairro Tamanduá.


Segundo ele contou para a polícia, sua esposa, Roselaine Ferraz, de 42 anos, passou mal naquele dia e foi levada para UPA local onde teria ficado por aproximadamente 30 minutos aguardando por atendimento médico, mesmo anunciando que ela estava "sufocando a respiração" e que precisava ser passada na frente. Ele contou que devido ao atendimento tardio, sua esposa acabou morrendo.


A sobrinha da vítima, Bruna Nascimento, disse que a tia havia permanecido na recepção da UPA enfartando por mais de 30 minutos sem que ninguém ao menos verificasse a pressão dela que estava em 26, como consta na declaração de óbito. "Ela morreu de frente àquela porta, caída no chão, nos braços do marido. A famosa porta do ‘abatedouro’. Ela não foi atendida não, nem questionada dos sintomas que estava sentindo em momento algum".
Por parte da Secretaria de Saúde de Olímpia, apenas uma nota lacônica sobre o grave episódio, se eximindo de responsabilidades: “A paciente Roselaine Ferraz, de 42 anos, que veio a óbito na Unidade de Pronto Atendimento na sexta (2) recebeu atendimento médico adequado e ressalta que as medidas normais de procedimento foram adotadas. A Secretaria de Saúde se sensibiliza com o ocorrido.”


NO DIA SEGUINTE, UM BEBÊ MORRE
Um bebê de cinco meses teria ido a “próxima vítima” da UPA, no último final de semana, vítima de meningite. Pessoas que compareceram ao velório da criança afirmaram que o caixão ficou lacrado.


O Boletim de Ocorrência foi registrado às 3h49 do sábado, dia 3, como morte natural. Nele, a avó Rosana Perpétua Ziviani Sichinelle, de 46 anos, moradora na Avenida Dr. Andrade e Silva, informou que seu neto, Pablo Henrique Ziviani Rudiam, de apenas cinco meses de vida, teve febre alta na tarde de sexta-feira, 2, e o levou até a UPA, por volta das 19h30.


Lá, a criança foi medicada e liberada. Por volta das 23 horas percebeu que o corpo da criança estava com "manchinhas" arroxeadas e o levou na UPA novamente, onde foi atendido rapidamente sendo que por volta de 1h30 veio a óbito.


A Secretaria, mais uma vez, se justifica perante o caso, afirmando que o paciente esteve na UPA na sexta (2) com sua avó, que relatava que a criança apresentou febre durante a tarde. “No atendimento, a criança não estava em estado febril. Foi medicada e orientada a procurar a Unidade de Pronto Atendimento caso apresentasse febre. Na madrugada de sábado, o paciente retornou à unidade apresentando palidez, vômito e respiração ofegante sendo encaminhado para a emergência da unidade. Durante os procedimentos a criança sofreu uma parada cardiorrespiratória vindo a falecer”. E que ainda não sabe a causa da morte.


SECRETÁRIO NEGA CAOS, MAS
MOSTRA DESCONHECER REDE


O secretário municipal de Saúde, Marcos Pagliuco, falando esta semana à imprensa, negou que a situação da Saúde local seja de caos, porque em todos os setores ela vem funcionando. Porém, no decorrer da entrevista, Pagliuco deu mostras de que não conhece tudo o que acontece no dia-a-dia do setor, uma vez que foi pego de surpresa por vários relatos de cidadãos usuários do SUS, que denunciaram situações e acontecimentos que ele deu mostras de não estar sabendo que estão havendo.


O secretário reclamou da falta de recursos, disse das ações que estão sendo feitas no entorno da Saúde local, mormente sobre o sistema de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde-UBS’s e no Ambulatório de Referência e Especialidades-ARE, o chamado “Postão”.
Dizendo que a UPA consome cerca de R$ 800 mil por mês e as UBS’s cerca de 150 mil cada uma mensalmente, Pagliuco observou que “estamos fazendo tudo aquilo que temos condições de fazer”. Sobre os acontecimentos do final de semana passado, disse se sensibilizar com a situação, mas tentou amenizar o fato alegando que há excesso de demanda na Unidade de Atendimento de Urgência e Emergência. “São seis mil atendimentos por mês”, justificou.


Pagliuco reconhece, no entanto, que há muito por fazer. “Meu sentimento é o de que temos que trabalhar muito mais”, disse. E no tocante à prestação de serviços por sua equipe, observou: “Não podemos errar. E vamos dispensar quem não estiver fazendo o serviço de acordo”.
O secretário, no entanto, deu sinais de que pouco sabe sobre o cotidiano do setor, uma vez que as reclamações que lhe chegavam eram novas, dadas suas reações. Até mesmo a Ouvidoria, tão celebrada por ele, recebeu críticas de usuários, que disseram que ela não funciona.


E, o pior, foram as informações desencontradas quanto ao ocorrido no final de semana, com as duas mortes. Disse que a mulher havia tido um primeiro atendimento e levada para a antessala médica, onde passou mal e morreu, quando a situação era de não atendimento mesmo, com a paciente não passando sequer da porta de entrada. E no caso do bebê, disse que a criança chegou à UPA febril quando a nota da assessoria de imprensa da prefeitura afirmava que o bebê morto não apresentava febre quando foi atendido na primeira vez.


Pagliuco prometeu instaurar sindicância nos dois casos -das mortes da mulher e do bebê, e segundo ele, “quem errou vai pagar”. O secretário disse que inda está reestruturando todo sistema organizacional da Saúde municipal. “Estamos fazendo tudo o que é possível para resolver a situação (do sistema)”, completou.

Comentários