Até na terceira idade se pode começar a usar drogas

O alerta foi feito pela delegada-especialista do Denarc, Regina Ribeiro Neves, palestrante do curso de ‘Capacitação de Agentes’

Geralmente quando se fala em uso de drogas, pensa-se sempre em adolescentes e jovens, vítimas potenciais na sociedade. Os trabalhos desenvolvidos nesta área, inclusive, também são quase sempre voltados a estas faixas etárias. No entanto, o problema das drogas também afeta adultos, na faixa dos 40, 50 anos, e pode alcançar a terceira idade, 60 anos acima, que de um momento para outro, pode se tornar usuário.

 Quem faz o alerta é a delegada-palestrante do Departamento Estadual de Investigações Sobre Narcóticos-Denarc, Regina Ribeiro Neves. Ela esteve em Olímpia, junto a outros colegas ministrando o curso “Capacitação de Agentes Multiplicadores na Prevenção ao Uso Indevido de Drogas”, evento realizado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, em parceria com a Prefeitura da Estância Turística de Olímpia, por meio da Secretaria Municipal de Saúde.

“Nós temos falado muito sobre essa questão do desencadeador de uso das drogas na vida adulta. Pensa-se que a pessoa nunca vai usar droga depois que está com 35, 40, 50 anos, amadurecidos né? Isso é um grande mito. As pessoas começam a fazer o uso com 40, 50, até mesmo com 60 anos de idade”, ela diz.

O trabalho de Regina Neves e seus colegas, é voltado para as chamadas “medidas preventivas da ação primária”. “O resultado que a gente prevê, que pensamos que aconteça, é o resultado da multiplicação mesmo”, complementa. “Esse curso é um curso de agentes multiplicadores”, assevera. Na entrevista que concedeu ao Planeta News na terça-feira, 6, Regina Neves fala também sobre a falta de equipamentos públicos de esporte, lazer, de cultura e música para a juventude e também sobre liberação das drogas, entre outras questões.

Planeta News: Quais os resultados efetivos que vocês vislumbram com esse trabalho que vêm fazendo?

Regina Neves: Nosso trabalho é voltado para medidas preventivas da ação primária. Nós não temos resultados catalogados, não temos dados epidemiológicos de resultados, mas o resultado que a gente prevê, que a gente pensa que aconteça, é o resultado da multiplicação mesmo. Esse curso é um curso de agentes multiplicadores, se cada pessoa que sair daqui falar sobre esse assunto para mais uma pessoa, isso para a gente já está alcançando nossos ideais, agora se a pessoa vai fazer ou não, a gente não tem como medir isso.

Planeta News: A maioria das pessoas presentes é leiga, não são pessoas que lidam especificamente com esse tipo de assunto ou trabalhe nessa área. Basta fazer o curso, e elas vão se sentir mais animadas, incentivadas a tratar da questão com outras pessoas?

Regina Neves: É exatamente essa a ideia. Que a pessoa se sinta tocada. Não é um curso de pós-graduação, ela não vai sair daqui apta a ser mestre, professor. Mas esse curso é exatamente isso, para incentivar, fazer com que a pessoa procure aprender, estudar mais, até disponibilizamos material.

PN: Droga é uma questão de saúde?

RN: No momento, droga é uma questão de policia ainda. Estamos caminhando para que se torne só problema de saúde. O usuário de droga ainda é penalizado, tem algumas questões jurídicas. Agora, o dependente químico não tem que ser penalizado, ele tem que ser tratado. Essa que é a nossa grande luta: para que o dependente químico tenha mais acesso, consiga cada vez mais essa possibilidade de estar inseridos em projetos, para que tenha tratamento mais adequado, para quando ele tiver essa pré-disposição interna, ele tenha para onde recorrer.

PN: E a questão da liberação das drogas, como você, ministradora de cursos, vê a possibilidade?

RN: Nosso país está caminhando bastante rapidamente para que isso ocorra. Não vemos com muito bons olhos lá na Divisão de Prevenção e Educação do Denarc, por que existem questões bastante complexas envolvendo a liberação das drogas. Num primeiro momento não seriam todas as drogas, seria só a maconha. Mas, em que resolveria só a liberação da maconha para diminuição do tráfico de drogas? O grande mote das questões a favor da liberação é a questão do tráfico, porque tudo que começa no tráfico termina no crime no país. Como se a coisa fosse tão simples assim de se resolver. Não resolveria o problema de forma alguma com as outras drogas que continuariam ainda proibidas.

PN: Mas não se gasta muito dinheiro com essa proibição, e a corrida, a velocidade da prevenção não é bem menor do que a velocidade do tráfico?

RN: Sim, com certeza! Sem dúvida, parece que é enxugar gelo! Mas é uma medida que visa uma mudança cultural a partir do momento que começamos a falar mais sobre isso para o jovem. Os meninos que usam maconha não têm ideia do dano que ela causa, dizem “eu uso e não faz mal nenhum”! Ou “isso me relaxa”, blá-blá-blá. E quando você começa a falar sobre isso, eles sempre sabem os benefícios positivos, os negativos eles nunca sabem! Quando começamos a mostrar o estrago que isso pode causar a ele, vai pensar e repensar no que está fazendo, no que está utilizando.

PN: Agora, para sair do mundo das drogas é necessário que a pessoa queira?

RN: Sim! Existem as internações involuntárias, mas é uma prática que nós também não somos muito a favor lá no Denarc. Para ele (viciado) ter uma mudança efetiva, ele tem que ter uma mudança interna, falamos sobre isso nas palestras: das mudanças do mundo interno, psíquico dele. Ele tem que seguir alguns passos para isso, e quando ele fala “eu quero realmente mudar, eu quero mudar meu comportamento”, nós acreditamos que isso é plenamente possível.

PN: Você falou que quando se trata da questão das drogas, da prevenção, do trabalho de orientação, pensa-se sempre nos jovens, nos adolescentes, mas que também isso é uma questão que afeta até idosos...

RN: Nós temos falado muito sobre essa questão do desencadeador de uso das drogas na vida adulta. Pensa-se que a pessoa nunca vai usar drogas depois que está com 35, 40, 50 anos, amadurecidos, né? Isso é um grande mito! As pessoas começam a fazer o uso com 40, 50, até mesmo com 60 anos de idade. Pessoas que nunca usaram drogas, de repente desencadeia uma dependência química de álcool, até do crack na vida idosa. Por isso estamos com olhar de população de modo geral, porque mesmo quem faz prevenção, às vezes não pensa na nesta população, que é uma população bastante vulnerável, que são os idosos.

PN: A droga está socializada?

RN: Hoje, nas nossas escolas, essa semana, tivemos um problema.... Uma menor que vendia droga na escola, e nesta escola os professores trazem o relato de que todo mundo usa maconha. Então é uma coisa bastante complicada, é uma situação em que precisamos falar bastante.

PN: Qual sua visão geral sobre isso? É possível vencer essa corrida?

RN: Não gostamos muito dessa questão de vencer. As medidas preventivas sempre serão as melhores medidas. Eu acredito que para transformar essas questões temos que pensar nessas boas práticas, pensar mais nos nossos jovens, oferecer atividades. Eu vejo em São Paulo, as periferias de lá não têm um campo de futebol, não têm atividade nenhuma cultural, de lazer, etc. E isso é fator extremamente propenso para que o jovem acabe no mundo do tráfico. Aí ele ganha R$ 500 no dia tranquilamente, o que acaba levando-o definitivamente ao mundo das drogas. Quanto mais oferecermos coisas legais, maior a possibilidade deste jovem ter uma outra chance na vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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